Em um dos eventos geopolíticos mais dramáticos da década, os Estados Unidos realizaram uma operação militar em solo venezuelano que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e na transferência deles para os Estados Unidos, onde respondem a acusações federais, incluindo narcotráfico e “narcoterrorismo”. A ação incluiu ataques aéreos que sacudiram Caracas, matou dezenas de combatentes e foi saudada por Washington como um sucesso estratégico.
Do ponto de vista canadense, o cenário é ambivalente e repleto de tensões. O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que Ottawa apoia o “direito do povo venezuelano de decidir e construir seu próprio futuro numa sociedade pacífica e democrática” e saudou a oportunidade de democracia e prosperidade para os venezuelanos. Carney enfatizou que o Canadá chama todas as partes a respeitar o direito internacional e reiterou que Ottawa não reconhecia a legitimidade do regime de Maduro desde as eleições de 2018 consideradas fraudulentas.
CityNews Halifax
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Isso, porém, está longe de ser um endosso incondicional à intervenção americana. Na própria arena política canadense, multiplicam-se vozes que consideram a operação uma violação do direito internacional e da soberania venezuelana, e criticam a falta de condenação mais firme por parte de Ottawa. Partidos como os Verdes e alguns membros do Novo Partido Democrático chamaram a ação de “sequestro” e exigiram um posicionamento mais claro em defesa da lei internacional.
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Esse debate ecoa um problema mais amplo: qual é o papel legítimo de potências externas na reorganização política de um país soberano? A captura de Maduro — defendida nos EUA como uma ação de cumprimento de lei por acusações pendentes e como combate a um regime repressivo — também foi descrita por críticos internacionais, inclusive na ONU, como uma violação direta da Carta das Nações Unidas e um precedente perigoso de intervenção militar em governos de outros países.
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O contexto hemisférico é ainda mais tenso: governos da América Latina reagiram com posições divergentes. Alguns líderes alinhados ao Ocidente rechaçaram o regime de Maduro, mas expressaram preocupação com o uso da força; outros, como México, Cuba, Rússia e China, condenaram a operação americana como um ato de agressão imperialista.
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A retórica de Donald Trump — que chegou a dizer que os EUA “não têm medo de usar tropas em solo” e que vão “administrar temporariamente a Venezuela” — acrescenta uma camada de inquietação à política externa norte-americana. Essa postura remete a interpretações revividas da Doutrina Monroe, adaptadas para justificar a supremacia dos EUA no hemisfério, suscitando receios até mesmo em aliados próximos como o Canadá de que a lógica de poder pode sobrepor-se ao multilateralismo e ao respeito à soberania nacional.
New York Post
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Por fim, a matéria não pode perder de vista um elemento que ficou nas entrelinhas das declarações oficiais: os recursos naturais e interesses econômicos em jogo. A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, e há indícios claros de que o controle sobre esses ativos influenciou parte da narrativa e das ações internacionais, mesmo quando posta sob o véu de promoção da democracia.
Reuters
Em síntese, o episódio expõe uma encruzilhada profunda: entre o desejo legítimo de apoiar populações que sofrem sob regimes opressores e a necessidade de respeitar os princípios basilares do direito internacional e da soberania estatal. A posição do Canadá, que tenta equilibrar apoio ao povo venezuelano com respeito às normas internacionais, ilustra bem esse dilema. O depois dessa intervenção — político, social e humanitário — continua incerto, mas seguramente será um dos capítulos mais debatidos da diplomacia ocidental na década.


