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ECONOMIA

Canadá, EUA e o fim da soberania venezuelana? Uma operação que redefine hemisfério

Em um dos eventos geopolíticos mais dramáticos da década, os Estados Unidos realizaram uma operação militar em solo venezuelano que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e na transferência deles para os Estados Unidos, onde respondem a acusações federais, incluindo narcotráfico e “narcoterrorismo”.

Simão Monteiro
7 de janeiro de 2026 às 21:34
Internacional
Canadá, EUA e o fim da soberania venezuelana? Uma operação que redefine hemisfério

Em um dos eventos geopolíticos mais dramáticos da década, os Estados Unidos realizaram uma operação militar em solo venezuelano que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e na transferência deles para os Estados Unidos, onde respondem a acusações federais, incluindo narcotráfico e “narcoterrorismo”. A ação incluiu ataques aéreos que sacudiram Caracas, matou dezenas de combatentes e foi saudada por Washington como um sucesso estratégico.

Do ponto de vista canadense, o cenário é ambivalente e repleto de tensões. O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que Ottawa apoia o “direito do povo venezuelano de decidir e construir seu próprio futuro numa sociedade pacífica e democrática” e saudou a oportunidade de democracia e prosperidade para os venezuelanos. Carney enfatizou que o Canadá chama todas as partes a respeitar o direito internacional e reiterou que Ottawa não reconhecia a legitimidade do regime de Maduro desde as eleições de 2018 consideradas fraudulentas.

CityNews Halifax

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Isso, porém, está longe de ser um endosso incondicional à intervenção americana. Na própria arena política canadense, multiplicam-se vozes que consideram a operação uma violação do direito internacional e da soberania venezuelana, e criticam a falta de condenação mais firme por parte de Ottawa. Partidos como os Verdes e alguns membros do Novo Partido Democrático chamaram a ação de “sequestro” e exigiram um posicionamento mais claro em defesa da lei internacional.

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Esse debate ecoa um problema mais amplo: qual é o papel legítimo de potências externas na reorganização política de um país soberano? A captura de Maduro — defendida nos EUA como uma ação de cumprimento de lei por acusações pendentes e como combate a um regime repressivo — também foi descrita por críticos internacionais, inclusive na ONU, como uma violação direta da Carta das Nações Unidas e um precedente perigoso de intervenção militar em governos de outros países.

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O contexto hemisférico é ainda mais tenso: governos da América Latina reagiram com posições divergentes. Alguns líderes alinhados ao Ocidente rechaçaram o regime de Maduro, mas expressaram preocupação com o uso da força; outros, como México, Cuba, Rússia e China, condenaram a operação americana como um ato de agressão imperialista.

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A retórica de Donald Trump — que chegou a dizer que os EUA “não têm medo de usar tropas em solo” e que vão “administrar temporariamente a Venezuela” — acrescenta uma camada de inquietação à política externa norte-americana. Essa postura remete a interpretações revividas da Doutrina Monroe, adaptadas para justificar a supremacia dos EUA no hemisfério, suscitando receios até mesmo em aliados próximos como o Canadá de que a lógica de poder pode sobrepor-se ao multilateralismo e ao respeito à soberania nacional.

New York Post

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Por fim, a matéria não pode perder de vista um elemento que ficou nas entrelinhas das declarações oficiais: os recursos naturais e interesses econômicos em jogo. A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, e há indícios claros de que o controle sobre esses ativos influenciou parte da narrativa e das ações internacionais, mesmo quando posta sob o véu de promoção da democracia.

Reuters

Em síntese, o episódio expõe uma encruzilhada profunda: entre o desejo legítimo de apoiar populações que sofrem sob regimes opressores e a necessidade de respeitar os princípios basilares do direito internacional e da soberania estatal. A posição do Canadá, que tenta equilibrar apoio ao povo venezuelano com respeito às normas internacionais, ilustra bem esse dilema. O depois dessa intervenção — político, social e humanitário — continua incerto, mas seguramente será um dos capítulos mais debatidos da diplomacia ocidental na década.

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