RIO DE JANEIRO – Em uma trama que mistura a alta cúpula do poder legislativo fluminense, a magistratura federal e as lideranças mais sanguinárias do crime organizado, a Polícia Federal (PF) concluiu o inquérito que detalha as entranhas da Operação Unha e Carne. O documento de 188 páginas, ao qual esta reportagem teve acesso, expõe como o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, teria atuado como o "informante de luxo" do deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, acusado de lavar dinheiro para o Comando Vermelho (CV).
O Lead: A Noite em que o Crime Dormiu Tranquilo
Na noite de 2 de setembro de 2025, enquanto equipes da PF preparavam as viaturas para a Operação Zargun, o alvo principal, TH Joias, recebia um "alerta geral". Segundo o relatório assinado pelo delegado Guillermo de Paula Machado Catramby, o vazamento permitiu que o deputado desocupasse sua mansão e trocasse de celular horas antes da chegada dos agentes. O pivô do alerta, segundo a PF, foi Rodrigo Bacellar, que naquela mesma noite jantava com o relator do caso no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), o desembargador Macário Ramos Júdice Neto.
Contexto: O Elo entre o Palácio e o Bunker
A investigação revela que TH Joias não era apenas um parlamentar, mas um braço financeiro estratégico para a cúpula do CV, mantendo relações íntimas com traficantes como Doca e Urso. Fotos apreendidas mostram o deputado deitado em uma cama coberta por milhões de reais em espécie. Para proteger esse aliado, Bacellar teria utilizado informações privilegiadas.
A Cronologia do Vazamento
O monitoramento telemático e as câmeras de segurança do Condomínio Mansões desenham uma linha do tempo frenética:
20:22h: Um "moto-Uber" chega à casa de TH Joias. O passageiro mostra um celular ao deputado.
20:36h: TH Joias cria um novo Apple ID e instala um WhatsApp "bomba" (em nome de terceiros).
21:01h: A primeira mensagem do novo número é para Rodrigo Bacellar: "Fala 01, estou nessa".
21:35h: TH envia um vídeo de seus freezers cheios de carne, temendo que os policiais as "roubassem". Bacellar responde secamente: "Deixa doido", orientando o colega a não se preocupar com itens menores e focar na fuga.
21:52h: Um caminhão de frete entra no condomínio e realiza um "limpa" na residência do deputado.
O Jantar no "Assador"
Enquanto TH Joias coordenava o desmanche de sua casa, Bacellar estava na churrascaria Assador, no Aterro do Flamengo. Às 22:12h, ele enviou uma mensagem ao seu assessor, Rui Carvalho Bulhões: "Estamos no Assador. Macário". Minutos antes, ele confirmara a outra interlocutora: "Tô no jantar com desembargador".
A PF destaca a gravidade do encontro: Macário Júdice Neto era o magistrado responsável por decidir sobre as prisões e buscas daquela operação. O relatório aponta uma "relação de intimidade anômala" entre o político e o juiz, com trocas de mensagens contendo declarações como "Te amo" e "Você é irmão de vida".
Documentos Oficiais e Provas
Durante as buscas da fase posterior (Operação Unha e Carne 2), a PF encontrou evidências de obstrução:
No gabinete de Macário: Foi achada a portaria de um inquérito contra Washington Reis, adversário político de Bacellar, sugerindo o uso do cargo para fins políticos.
Na residência de Bacellar: Imóveis de alto luxo em Teresópolis e Copacabana, incluindo um apartamento de 650m² com porta blindada que exigiu esforço extremo para ser arrombada. Em um dos endereços, os armários estavam vazios, indicando que o presidente da Alerj também se preparara para as buscas.
Com o assessor Rui Bulhões: Um manuscrito com instruções detalhadas de como apagar dados do iCloud e desabilitar backups para impedir a perícia digital.
Impacto e Desdobramentos
O caso abala os pilares do Rio de Janeiro ao demonstrar que o sigilo de operações de alta periculosidade é vulnerável a jantares de cortesia. Rodrigo Bacellar chegou a ser preso preventivamente em dezembro de 2025, mas foi solto após votação na Alerj, que utilizou suas prerrogativas para derrubar a ordem judicial.
Status Atual
O relatório final da Polícia Federal foi encaminhado ao Ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal, e à Procuradoria-Geral da República. Os investigadores sustentam que houve "ativa e deliberada obstrução à justiça". A defesa de Rodrigo Bacellar nega as irregularidades e afirma que os encontros com o desembargador foram de natureza estritamente pessoal. O desembargador Macário Júdice Neto não comentou o teor das mensagens de afeto trocadas com o investigado.
O processo agora aguarda o oferecimento de denúncia formal pela PGR, enquanto o Rio de Janeiro assiste a mais um capítulo da simbiose entre o crime, a política e o judiciário.


