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O CRIME ORGANIZADO

Linha Tênue: A Simbiose entre Política, Polícia e Crime no Rio de Janeiro

O discurso maniqueísta que opõe polícia (o "bem") ao crime (o "mal") encontra no Rio de Janeiro um cenário que o desmonta e o reconfigura em uma realidade complexa e perversa. Aqui, a linha que separa a lei da ilegalidade não é apenas tênue; é frequentemente invisível, corroída por uma promiscuidade histórica e estrutural entre a política, as instituições policiais e o crime organizado.

Wilson Ribeiro
5 de janeiro de 2026 às 00:30
Brasil
Linha Tênue: A Simbiose entre Política, Polícia e Crime no Rio de Janeiro

O discurso maniqueísta que opõe polícia (o "bem") ao crime (o "mal") encontra no Rio de Janeiro um cenário que o desmonta e o reconfigura em uma realidade complexa e perversa. Aqui, a linha que separa a lei da ilegalidade não é apenas tênue; é frequentemente invisível, corroída por uma promiscuidade histórica e estrutural entre a política, as instituições policiais e o crime organizado. O resultado é um estado onde as forças que deveriam combater o crime muitas vezes se confundem com ele, em uma simbiose que corrói a democracia e a segurança pública.

O Estado Conflagrado e o Domínio Territorial

O Rio de Janeiro é um mosaico de territórios disputados. Não há comunidade, bairro ou rua que não esteja sob a influência direta ou indireta de uma facção criminosa: Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro (TCP), ou milícias. Estas últimas, grupos paramilitares que nasceram de um discurso de segurança e hoje controlam territórios através da extorsão, do monopólio de serviços ilícitos e da intimidação. Este domínio territorial não é apenas sobre drogas ou armas; é sobre poder político.

O Elo Corrompido: Política como Moeda de Troca

Cada comunidade dominada por uma facção representa centenas de milhares de eleitores. Em um cálculo eleitoral perverso, votos se tornam a moeda de troca. Políticos, que são "frutos da sociedade fluminense" dominada por esse contexto, veem-se diante de um dilema distorcido: ignorar essas bases é perder eleições; negociar com elas é legitimar o crime.

Esta integração não é metafórica. É operacional. A nomeação de delegados para chefiar investigações ou de comandantes da Polícia Militar para batallhões estratégicos passa, frequentemente, por indicações políticas que atendem a interesses de facções. Um delegado "amigo" ou um coronel "tolerante" pode garantir a fluidez de um negócio ilícito ou a segurança de uma operação criminosa. A pressão vem tanto de políticos em busca de votos quanto das próprias organizações criminosas, que entendem o poder do Estado melhor que muitos cidadãos.

Espelhos Distorcidos: Do Topo à Ponta da Lança

Se os chefes das polícias são frequentemente indicados por essa lógica, que exemplo sobra para o policial da linha de frente, a "ponta da lança"? Ele se vê em um campo minado, onde a hierarquia pode estar comprometida e a sobrevivência — ou o enriquecimento ilícito — parece exigir "pulinhos não convencionais". A corrupção deixa de ser uma exceção para se tornar uma estratégia de adaptação a um sistema doente. O resultado são ciclos de violência e corrupção que vitimam a população e mancham a farda.

Casos que Explicam a Teoria

A história recente do Rio é um catálogo trágico dessa integração:

Marielle Franco: A execução da vereadora em 2018, com condenações recentes de um delegado chefe de uma das maiores milícias do estado por organização do crime.

Patrícia Acioli: A juíza assassinada em 2011 por policiais militares, com um ex-comandante do BOPE condenado como mandante.

Presidente da ALERJ preso: A prisão, no mês passado, do então presidente da Assembleia Legislativa por suspeita de vazar informações sigilosas para o crime organizado.

Deputado do Comando Vermelho: A existência de um parlamentar flagrado em vídeo negociando diretamente com a liderança da facção, dentro da própria ALERJ.

Visitas de Lula e Bolsonaro: A política nacional também navega por estas águas. O presidente Lula visitou o Complexo do Alemão, historicamente ligado ao Comando Vermelho, e o coração do PCC em São Paulo. O ex-presidente Jair Bolsonaro tem histórico de apoio público a líderes milicianos, como o caso do candidato Witzel, e a família tem laços investigados com milicianos do Rio.

Conclusão: A Ausência que Gera o Monstro

A promiscuidade entre polícia, política e crime não é um acidente. É o fruto podre da ausência crônica de uma política de segurança pública séria, autônoma e baseada na inteligência e nos direitos humanos. Quando o comando da segurança vira moeda de barganha política, a população perde. A polícia perde sua legitimidade. E o crime organizado ganha um assento na mesa de negociações do poder. Enquanto o Estado do Rio não romper esse ciclo vicioso, a linha entre o bem e o mal permanecerá não apenas borrada, mas ativamente apagada por aqueles que deveriam desenhá-la com mais firmeza. A pergunta que fica é: quem, de fato, governa o Rio?

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